Gregório Silvestre nasceu na aldeia de Vilarinho, freguesia de Manhouce (São Pedro do Sul). Depois dos estudos, rumou ao Brasil, em busca de uma vida melhor e da liberdade que faltava naqueles anos em Portugal. Não obstante ter sedimentado as suas raizes no país irmão, nunca esqueceu as suas origens, viajando frequentemente à sua terra, para rever a família e amigos e constatar as mudanças ocorridas no período em que esteve ausente.

Quando se deu o 25 de abril de 1974, toda a região de Lafões entrou numa natural efervescência, visível em termos do espírito associativo e das manifestações culturais do povo. Gregório Silvestre intuiu de forma particular a necessidade de registar alguns dos momentos de sociabilização que ocorriam naqueles anos na sua terra serrana e, munido de um gravador de cassetes, gravou um pouco de tudo. Conversas, festas, reflexões e muitos cantares ao desafio que as gentes beirãs já então amavam.

Há cerca de uma década, Gregório Silvestre, apresentou-nos a sua coleção de cassetes gravadas entre 1977 e 1980, as quais tinha digitalizado e pretendia melhorar a qualidade do som, o que, dentro do que foi possível, acedemos com todo o gosto.

Temos o maior gosto de apresentar alguns excertos das referidas gravações, começando com um longo despique de dois cantadores ao desafio, Augusto Tavares e Adão Matos, no contexto de uma festa realizada na aldeia de Vilarinho. Segundo conseguimos perceber, através de uma entrevista incluída no conjunto de registos, Augusto Tavares era natural de Arões, Vale de Cambra.

Tudo é interessante nesta gravação: percebermos como a forma de cantar ao desafio era diferente, mais arrastada, de como se sente um sotaque mais cerrado nas vozes dos homens daquele tempo e de como a temática do despique é elegante e respeitadora, fazendo, nomeadamente, referências à vida dura do trabalho no campo, à condição do cantador enquanto lavrador e artista da palavra, assim como à passagem dos anos (perguntam, quem virá depois de nós?).

Gravado por Gregório Silvestre em Agosto de 1980, na aldeia de Vilarinho. Editado por Luís Costa.