NODAR.00794 – Bondança: Documentário “Bondança, Abundância”
“BONDANÇA: ABUNDÂNCIA”
Um documentário de Manuela Barile
38 minutos, 2017
BEM-VINDOS A UM LUGAR DE TEMPO LENTO
“Bondança: Abundância” é um documentário da Binaural Nodar realizado por Manuela Barile, o qual resultou de um desafio colocado pela Profª Isabel Silvestre para que pudesse ser acompanhado o ciclo do milho no arco de um ano inteiro da vida de uma comunidade exemplar: a aldeia de Bondança (freguesia de Manhouce, concelho de São Pedro do Sul).
O topónimo Bondança (antigamente Abundança) tem origens muito antigas e, segundo os seus habitantes, deriva dos frondosos castanheiros presentes durante o Outono, os quais davam muitas castanhas existindo, portanto, uma “abundância” de castanhas e de folhas pelo chão e a certeza do sustento da economia familiar em que a castanha servia como substituto da batata, sendo inclusive usada na alimentação desde tempos medievais.
Corria o ano de 2012, quando a Binaural Nodar tinha acabado de celebrar um convénio com uma rede europeia na área da pesquisa etnoantropológica e etnomusicológica e da arquivística audiovisual – a rede Tramontana de arquivos da memória de zonas rurais – pelo que o convite da Profª Isabel Silvestre constituiu um perfeito contexto para uma investigação prolongada numa única aldeia, a qual foi coordenada por Luís Gomes da Costa e Manuela Barile, tendo contado com a colaboração da equipa da associação, de vários estagiários do curso de multimédia da Escola Profissional de Carvalhais e da comunidade local da Bondança, aldeia encravada na zona ocidental e granítica do Maciço da Gralheira.
A referida investigação consistiu numa recriação exemplar, com respeito pelos mais ínfimos detalhes, das fases do ciclo do milho na aldeia da Bondança, sendo entendido esse ciclo do milho de uma forma alargada, incluindo fases a montante (como a ida ao monte com o carro de vacas para levar a carqueja para a cama dos animais) e a jusante (como a própria fabricação da broa de milho). No seu corpo principal, o ciclo incluiu a sementeira, a rega e monda, a extração da bandeira e da ponta, a colheita das espigas, a desfolhada, a malha, a secagem nas eiras, a armazenagem nos canastros ou espigueiros e a moagem.
Paralelamente ao ciclo do milho, foram efetuadas uma vasta série de recolhas etnográficas e etnomusicológicas (a aldeia de Bondança é um exemplo magnífico de cantares a três vozes das serranias beirãs), assim como uma série entrevistas a habitantes da aldeia, com o objetivo último de contribuir a tutela, conservação e conhecimento da história, dos usos e dos costumes de Bondança, os quais delinearam os traços específicos do rosto dum território rural em transformação.
Durante todo o tempo da investigação, foram inúmeras as visitas efetuadas à aldeia e muitos os momentos de convívio com a comunidade, tendo sido acompanhados de perto os agricultores durante as tarefas do processo de cultivo e produção do milho no arco do ciclo das estações do ano. Ver a paisagem transmutar gradualmente as suas cores, transformar-se magicamente pela mão sábia do homem que sabe viver em profunda comunhão com a terra e com a natureza, foi uma experiência única e irrepetível para a equipa do projeto.
Existe uma geração na aldeia que é literalmente portadora dos saberes e valores do mundo antigo, os quais estão ainda vivos no coração dos habitantes de Bondança, tendo sido um imenso prazer aprender estes conhecimentos. A perseverança e o forte sentido de afiliação daqueles homens e mulheres são literalmente sinónimo de amor e de identificação total com a própria terra, com as próprias raízes e com o próprio passado ainda presente.